Violentada

Publicado: novembro 23, 2010 em Histórias Urbanas

Ela tinha um trabalho horrível com um chefe carrasco. Costumava ter pesadelos nas noites de domingo, tamanho era o pânico da segunda feira e do retorno ao trabalho. Certa manhã, enquanto ia ao trabalho, foi abordada por um estranho.

– Quietinha. Não olhe para os lados e ande!

Seu braço doía com o aperto forte do estranho e ela sentia algo contra suas costelas. Uma faca?

– Pra onde vamos?

– Vamos nos divertir um pouco.

– Estou atrasada pro trabalho. Não posso me atrasar.

– Eu disse pra ficar quieta e andar.

– Vai demorar pra chegar?

– Quieta. Você não entendeu?

– Vou me atrasar. Não sei o que você quer mas, com certeza, não vai ser pior do que o que meu chefe vai fazer comigo se eu me atrasar. Tenho uma reunião importante com um cliente importante.

– Aqui. Entra logo.

– Entrar onde? Isso é mato…

– Cala a boca e entra.

– Você vai me violentar, não vai?

– Você vai se divertir. Agora anda.

– Não vou andar mais. Já estamos escondidos estou com pressa e atrasada. Quer me violentar anda depressa com isso porque tenho coisas mais importantes pra fazer.

– Como é que é?

– Vai ficar aí me olhando com cara de idiota? Não vai me dizer que vou ter que tirar a roupa também…

– Você não tá com medo?

– Deixa a conversa pra depois, tá. Ou nunca. Termina isso de uma vez pra eu ir por escritório.

– Você tá tentando me enganar com esse teatro, né? Mas você é minha, não vai escapar, nem tenta. Se tentar eu te mato.

– Se vai me matar, faça-o de uma vez. Você não conhece meu chefe. Pra eu chegar atrasada preciso ter um excelente motivo. Ser estuprada deve estar nessa categoria, eu acho. E a morte dispensa explicações com a vantagem de me livrar desse emprego miserável. Então seja lá o que for que queira comigo, é bom que seja logo pra eu poder seguir com minha vida lamentável.

Sem ação, o estranho sentou-se e olhou o rosto da mulher. Ela estava mesmo falando a verdade.

– Vem. Eu te dou uma carona. Não vá se atrasar…

A Viúva

Publicado: novembro 3, 2010 em Histórias de Horror

D. só queria curtir a vida: queria namorar, beijar na boca e dar muitas risadas. Ela não era exatamente bonita. Seu charme era o senso de humor, mas isso funcionava muito bem com os homens e ela os tinha ao seu redor o tempo inteiro.

D. tinha uma implicância com a mania dos homens de querer “namoro sério”. Visitar mãe, deixar irmãozinho chamar de tia e toda aquela coisa social a deixava bastante irritada mas, enquanto o namoro era interessante D. passava por cima desses detalhes. Todo namoro estava destinado a terminar mesmo. Para D. os homens serviam para diversão e provisão de conhecimento. Ela não namorava homens, namorava profissões. Durante os anos aprendeu muitas coisas com os namorados – nenhum homem realmente – um amontoado de profissões, um amontoado de conhecimento. Cada namorado novo facilitava o seguinte porque ampliava o leque de assuntos a que ela estava apta a conversar.

Por muito tempo foi assim que D. viveu. Colecionava homens porque era mais fácil do que colecionar selos. Sempre que o enlace ficava sério demais ou sem graça demais ela passava para outro.

Um dia, D. conheceu um homem diferente. Não um diferente bom, apenas diferente. Ele não era excepcionalmente bem humorado, ou extremamente inteligente, ele não tinha nada novo para ensinar. Mesmo assim D. se permitiu viver essa aventura. D. queria saber como era uma vida sem graça, como a maioria de seus conhecidos – D. não tinha amigos, não queria vínculos fortes com ninguém, e a amizade era pra ela o vínculo mais forte existente – parecia gostar de viver. Os dias foram passando, e o namoro ficando sério. Ao mesmo tempo em que ela pensava na total perda de tempo útil de vida ao viver esse tipo de relacionamento ela também se perguntava se não seria interessante ter uma vida normal e sem graça como a de todo mundo. Então, começou a pensar que talvez fosse hora de sossegar. Fugiu de tantos compromissos, talvez tivesse chegado o momento de assumir um deles. O mundo precisa dessa gente decente – ela pensou – gente que constitui família, que tem filhos e vai na igreja todo domingo expurgar os pecados cometidos durante a semana. Pra eles, não importa o quanto pequem, há sempre o perdão garantido no púlpito toda a semana. Para D. não havia perdão porque ela não se envergonhava do pecado. Foi então que ela percebeu que não havia problema em pecar, bastava dizer ao padre que estava arrependida.

Percebeu que as pessoas que a cercavam estavam envelhecendo e se casando e excluindo-a de seus convívios. D. estava perdendo seus admiradores um a um. Não que eles não a admirassem mais, mas não estavam disponíveis para adorá-la e isso a incomodava. Ela queria ser aceita, ser convidada para os churrascos na casa dos amigos casados, queria fazer parte de suas vidas para manter a adoração mesmo que disfarçada de cortesia. Como queria ser vista com outros olhos, decidiu se tornar uma mulher séria, casar-se e, talvez, ter filhos.

Então D. se entregou a essa nova aventura chamada casamento. Quando o fardo do compromisso ficava pesado demais ela respirava fundo e pensava: “vou aguentar por hoje, amanhã eu penso no resto”. D. se sentia prisioneira dessa nova vida, mas ao mesmo tempo se sentia recompensada. Ela nunca fora tão aceita nem tão respeitada como agora.

Certo dia descobriu-se grávida. Seguramente todos pensariam se tratar de uma boa notícia. As pessoas têm essa mania de achar bonito ser mãe. E tem também todo aquele discurso sobre o encanto da maternidade; que uma mulher só se sente totalmente realizada depois de ser mãe e blá, blá, blá. É claro que D. não acreditava em toda essa bobagem. Se ser mãe fosse tão bom assim o mundo não estaria cheio de crianças abandonadas e a depressão pós-parto seria apenas um mito. D. não gostava de crianças.

Ela pensou na deformação do corpo; em suas novas responsabilidades; no tamanho do compromisso. Estremeceu. Então ponderou que, se um marido havia lhe aberto muitas portas, um filho a deixaria no topo da escala social familiar. Ninguém nunca desconfiaria de suas boas intenções. Seria convidada para as festinhas de aniversário. Poderia se exibir na pré-escola.

O filho veio, e é claro que não era tão divertido quanto outras mulheres disseram que seria. D. nunca se interessou pela criança, nunca a amou; não se encantou com os primeiros passinhos; nem se lembra qual foi a primeira palavra ou com quantos meses o bebê começou a engatinhar. Mas ela apreciava as compensações. Havia festas, reuniões de final de semana, cumplicidade com a vizinhança, histórias pra contar e ouvir, desculpas para se socializar e ser lembrada. D. gostava disso.

Um dia descobriu que estava cansada daquela vida; que já tinha sugado tudo que ela tinha pra dar. Queria estar sozinha, não ter família. Tanta adoração mostrou que ela ainda era uma mulher bonita. Queria namorar, descobrir, viver amores diferentes todos os dias, aprender coisas novas todos os dias. Queria voltar no tempo. Como? Separação? Não… o que diriam dela? D. não poderia ser motivo de fofocas. E a criança? Não que D. quisesse ficar com a criança, mas não pegaria bem deixá-la com o marido e, uma mulher separada com filho não conseguiria namorados dedicados. Não… uma criança atrapalharia seu estilo.

O jeito mais elegante, o jeito correto de sair daquele casamento era a viuvez. O marido e o filho precisavam morrer. A viuvez traz simpatia. Haveria as condolências, os pêsames, os abraços, e muita companhia enquanto o luto perdurasse. Por um tempo torceu por algum acidente. Deixava-os sair sozinhos. Não se importava se o marido bebesse um gole ou outro antes de dirigir, estimulava-o até. D. chegou a rezar pedindo que acontecesse o pior – melhor pra ela – e, como os meses passassem e ela continuasse casada e com filho decidiu que teria que fazê-lo com as próprias mãos.

Seria capaz? Claro que sim, ela era uma mulher inteligente. Sentiria culpa? Não. Desde que não fosse pega. Afinal, como ela já sabia, pouco importava o que se fizesse de errado. Importava sim o que os outros pensassem. Domingo iria à igreja e ficaria tudo bem. Ela seria uma viúva limpa, de reputação irretocável. E, depois de um tempo aceitável de luto, após a muita insistência de seus colegas, talvez até provocando alguns divórcios entre seus admiradores, retomaria sua vida tentando encontrar um novo amor.

Começou a montar seu álibi.

Ela, que sempre fizera questão de ter uma vida perfeita, sempre comentando com todos o quanto seu marido era um bom homem; o quanto seu filho era inteligente; o quanto o casamento dela era pleno de paz, harmonia e amor começou a se queixar, a dizer que seu marido andava mostrando sinais de depressão, e uma leve paranóia. Ela, inclusive, já tinha aconselhado o pobre diabo a procurar ajuda psicológica, psicoterápica e até psiquiátrica porque já não agüentava mais os desvarios do marido. Tanto insistiu na história que os vizinhos começaram mesmo a perceber os sinais de depressão do homem. Falavam sobre isso na igreja, na escola bíblica, cochichavam nos cantos da escolinha da criança. Pobre D., diziam, uma mulher tão boa, tão correta.

Quando D. achou que já era a hora, não perdeu muito tempo com planejamentos. Cismando sozinha certa noite decidiu que era tempo de pôr fim àquilo.

Enquanto o marido dormia sozinho no quarto ela pegou a criança e a colocou em seu lado, na cama. Fechou toda a casa, tirou a mangueira do botijão de gás do fogão, apertou a ponta, enfiou por baixo da porta do quarto onde sua família dormia e abriu a válvula.

Foi pra casa da sogra, e deixou um bilhete ao marido.

Chegou na casa de sua sogra dizendo-se muito preocupada com o marido, que estava com a sensação de que alguma coisa ruim iria acontecer em breve mas não sabia o que. Como não aguentava olhar as paredes de casa saiu pra espairecer e perguntou se podia dormir por ali mesmo aquela noite.

Procurou não pensar no que estaria acontecendo em sua casa e dormiu. Dormiu um sono sem sonhos. Na manhã seguinte acordou contente, e disse à sogra que conversaria com o marido, talvez fizessem uma viagem, talvez tivessem mais um filho, iria ajudá-lo a superar esse momento pra que voltassem a ser felizes e, naquele instante mesmo sairia pra comprar um presente e também para ficar mais bonita. Despediu-se da sogra com esperança no olhar.

Deixou seu carro na frente do salão e foi a pé pra casa. Só então sentiu a primeira pontada de nervosismo. Não pelo assassinato mas por medo que seu marido tivesse acordado no meio da noite e descoberto seu plano. O nervosismo durou pouco, muito pouco. Ela sempre fora uma mulher corajosa e decidida e, o que quer que tivesse acontecido ela teria que encarar cedo ou tarde.

Respirou fundo e entrou no quintal.

Abriu a porta de casa com todo o cuidado. Entrou. Fechou a válvula do botijão e o carregou para fora. Abriu as janelas, uma a uma, deixando que o ar puro ventilasse a casa e carregasse o cheiro forte do gás. Depois foi até o quarto e, cuidadosamente, abriu a janela. Esperou que todo o cheiro se dissipasse e tentou acordar o marido em vão.

Já começava a se sentir eufórica. Só precisava finalizar o trabalho. Com algum esforço, carregou o marido até o carro dele na garagem, e sentou-o no banco do motorista. Depois, carregou o corpinho de seu filho, com uma sensação de poder sobre a vida e a morte. Ela tinha lhe dado a vida, podia tirá-la também, era seu direito. Cuidadosamente, colocou-o sentado no colo do pai, não havia ternura naquele gesto, havia apenas vaidade. Ela sabia que a polícia viria, que haveria perícia e fotos e jornalistas e tudo tinha que estar perfeito. Todos deveriam olhar o rosto de seu filho morto e pensar que ele parecia realmente o anjo que ela sempre dissera a todos que ele era. A foto deveria ficar muito boa.

Quando achou que a imagem teria o impacto visual adequado pegou a mangueira do jardim, fixou no escapamento do carro, colocou o motor em ponto morto, encaixou a outra ponta da mangueira na janela, ao lado do motorista. Saiu. Comprou presentes, cortou o cabelo, pintou as unhas. Voltou pra casa, fez seu papel e seu rosto apropriadamente desesperançado e triste esteve em portais de internet por vários dias.

Dois anos depois ela ainda recordava com prazer das condolências; dos pêsames; da procissão de pessoas disposta a lhe dar apoio. Com o fim do luto vieram os namorados e ela se sentiu viva novamente, bonita. Ela gostava de ser desejada, de ser amada.

Certa tarde ela parou e pensou que já estava na hora de sossegar, quem sabe casar, talvez até ter um filho. Conheceu uma pessoa nova, até que ele era interessante. Por que não?